28.11.07

27.11.07

Inclusão de crianças especiais na sala de aula

A professora universitária e escritora, Ivanê Dantas, vem desenvolvendo projetos de pesquisa direcionado à inclusão das crianças com deficiência visual nas escolas e na sociedade, além de produzir diversos artigos que são publicados em jornais e revistas acadêmicas abordando a mesma temática que resultou num livro lançado na Bienal de Salvador em 2005.

Paloma Nogueira: Qual a maior dificuldade encontrada pelos alunos nas escolas dita regulares?

Ivonê Dantas: A escola regular historicamente tem seguido um modelo de ensino calcado na uniformização ou padronização pedagógicas, pelo qual as diferenças, peculiaridades ou necessidades especiais são, de certa forma, secundarizadas, em razão de vários fatores alegados, como, número volumoso de alunos na classe, falta de preparo suficiente dos professores, e, principalmente, a ideologia que perpassa a cultura escolar, na qual o saber ou conhecimento já vem predeterminado. Neste caso, a maior dificuldade dos alunos que possuem as chamadas Necessidades Educativas especiais é a falta de um ambiente na escola regular em que os conteúdos e as atividades pedagógicas estejam adaptados às suas características peculiares, para que ele possa acompanhar e ter um desempenho satisfatório no mesmo pé de igualdade que os seus colegas ditos “normais”. Por exemplo, não é fácil para um aluno com deficiência visual acompanhar um processo de ensino que esteja baseado, na maior parte do tempo, em materiais viso-sensoriais.

PN: Os professores da rede pública de ensino estão preparados para receber esses alunos?

ID: De modo geral, não, apesar de a LDB, no seu art. 58, estabelecer que os alunos deverão freqüentar preferencialmente a escola regular, e, no art. 59, que as escolas deverão assegurar aos educandos com necessidades especiais currículos, métodos, técnicas e recursos específicos para atender às suas necessidades.

PN: Como se da a inclusão dessas crianças em escolas regulares?

ID – O conceito de inclusão exige, sobretudo, a preparaçao da escola para atender a TODOS os alunos, independentemente de serem pessoas com deficiência ou não. Pressupõe a garantia dos princípios de autonomia ( direito de ir e vir), independência ( capacidade de tomar decisões) e o de equalização de oportunidades ( garantia de condições de aprendizagem para todos e a cada um em particular). Neste caso, o princípio da inclusão, pelo que foi dito acima, ainda não é uma realidade em nossas escolas regulares, principalmente a escola pública. A escola insere esses alunos nas classes,quando dispõem, principalmente, das salas de recursos ou encaminhando os alunos a centros especializados, como forma de apoio pedagógico à aprendizagem , o que se identifica mais como uma integração escolar, antes que inclusão, propriamente, porque é uma condição apenas parcial de adaptação .

PN: Existe alguma lei que assiste esse direito ou a escola pode se recusar a receber o educando?

ID: O termo “preferencialmente”, que faz parte do Artigo 58, abre a prerrogativa de o aluno ser educado em ambientes especializados. Por outro lado, a importância política que se insere em tal termo, requer que a escola regular envide esforços para receber o aluno, garantindo as condições internas possíveis para facilitar a sua aprendizagem, tal como as salas de recursos, ou, principalmente em casos mais complexos, tais como, deficiência mental, encaminhando os alunos a centros especializados, que poderão complementar a sua formação. O importante é fazer com que a criança se eduque através de oportunidades interativas, sem ficar totalmente segregado, para não comprometer a sua socialização e direito de participação social, como cidadão.

PN: Por que o uso do termo: “portadores de necessidades especiais” não é bem visto pelos pesquisadores e pelas pessoas que possuem algum tipo de deficiência?

ID: Duas críticas são feitas neste sentido:
A primeira é a de que o termo é vago e não define o que são verdadeiramente essas necessidades especiais, podendo, daí, implicar a exclusão das classes regulares de um grupo de crianças que não são deficientes, sob a alegação de que são portadores de NEE. Por outro lado, as deficiências em si não são um fardo a ser carregado, mas condições que fazem parte da identidade da pessoa, portanto esta tem que ser reconhecida e respeitada enquanto tal. Esta tentativa lingüística de minimização do estigma da pessoa com deficiência, evitando o termo “pessoa deficiente”, não encontra consistência na expressão de que estamos falando.

PN: Como se dá uma inclusão e a integração dessas crianças na sala de aula?

ID: A inclusão é uma expressão nova, surgida a partir dos anos 80, calcada, sobretudo nos movimentos políticos e sociais a favor de uma educação de qualidade para todos. Envolve o direito ao exercício de cidadania e requer a transformação da escola e da sociedade para incluir todos os educandos na corrente educacional. Neste caso, ainda é uma utopia,a qual, com o recrudescimento desses movimentos em favor das pessoas com deficiência, vem tomando mais força a cada dia. A integração é um conceito mais restrito, que implica certas condições adaptativas da escola voltadas para a pessoa com deficiência. Mesmo assim, nem todas as escolas possuem essas condições ou elas são insuficientes.

PN: A inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais também acontece no EJA?

ID: Não tenho conhecimento de um programa pedagógico especial destinado às pessoas com deficiência e também não disponho de informação sobre a existência dessas pessoas nos cursos da Instituição e nem sobre como são assistidas curricular e pedagogicamente.

PN: O currículo é o mesmo para uma classe inclusiva levando em consideração que o processo cognitivo é mais lento para uma pessoa com necessidades especiais?

ID: Em primeiro lugar não se pode falar de processo cognitivo mais lento para todos os tipos de deficiência. Pelo contrário, com exceção das crianças com deficiência mental, aquelas com os demais tipos de deficiência são cognitivamente normais como quaisquer outras e até mais dotadas, como no caso daquelas ditas portadoras de altas habilidades”. O que é necessário é a eliminação do preconceito na própria escola e na sociedade, que, muitas vezes, associa as duas coisas.
O currículo inclusivo requer adaptações em níveis maiores ou menores ( adaptação parcial ou total) para adequar totalmente o processo pedagógico às peculiaridades dos alunos de toda a classe. Por exemplo, Gortázar( 1995) fala em :

currículo com alguma modificação – inclusão ou modificação de certos objetivos ou metodologias e o aluno permanece na sala regular a maior parte do tempo ;

currículo com modificações significativas – os alunos permanecem fora da sala de aula em períodos mais longos, recebendo reforço expressivo em áreas específicas, como, de linguagem e matemática, por exemplo, como no caso de alunos surdos;

currículo especial com adições – o aluno permanece fora da sala de aula a maior parte do tempo, sendo apoiado de forma mais concentrada em algumas matérias, dedicando-se menos às demais. Participa com os demais alunos apenas em situações escolares eventuais. São casos mais graves , como por exemplo, de deficiência mental;

currículo especial – apesar de fazer parte da comunidade escolar, o aluno é atendido basicamente em unidades de educação especial existentes na escola.

PN: As atividades produzidas são as mesmas para toda a turma?

ID: A depender do tipo e da gravidade da deficiência, podem ser as mesmas, em condições adaptadas, tais como, a transcrição do conteúdo do material didático para o Braille, no caso de cegos, a presença de pessoas com conhecimento de língua de sinais (LIBRAS) para comunicação simultânea do conteúdo de uma aula com atividade oral, no caso de surdos. No caso de situações de maior gravidade, os objetivos e os conteúdos devem ser dosados de acordo com as possibilidades do aluno no tempo programado pela escola. O tempo é também outro fator que deve ser considerado, tendo em vista que os alunos com deficiência podem requerer um tempo maior para as respostas, de acordo com o seu nível de habilidade, tal como, na leitura e na escrita em Braille, no caso de cegos.

PN: Como se dá o processo de avaliação para uma criança com deficiência visual?

ID: Considerando a peculiaridade da ausência total ou parcial da visão, suas implicações devem ser levadas em conta. Por exemplo, na avaliação chamada de produto, uma prova ou trabalho escrito deve ser obviamente transcrito para o Braille em tempo hábil. Da mesma forma, o tempo destinado ao aluno para responder deve considerar a peculiaridade desse sistema, cujos símbolos da escrita requerem mais movimentos motores que os símbolos do código da nossa língua escrita.De qualquer forma, a essa criança deveriam ser mais oportunizadas não só avaliações como atividades orais. Por outro lado, o seu processo de aprendizagem deveria ser avaliado de forma mais processual, para se identificar possíveis dificuldades, levando em consideração a ausência ou deficiência de condições inclusivas que normalmente caracterizam a escola regular.

PN: Quanto custa em média a ferramenta para ler e escrever utilizada pelas pessoas com deficiência visual?

ID: Essas pessoas utilizam basicamente duas ferramentas chamadas de reglete e punção, para escrita em Braille, que custa em torno de 60,00 reais. O sorobã, para cálculos matemáticos, custa 40,00.

PN: Quais avanços a pedagogia tem realizado para garantir a inclusão?

ID: se formos considerar esses avanços em termos de estudos e contribuições teóricas, a mudança do paradigma médico para o paradigma social, e, mais recentemente, a emergência do conceito de inclusão vêm proporcionando a expansão de trabalhos dedicados à área de educação especial, de pesquisas, estas sobretudo no sul e sudeste do País, do incremento de publicações e eventos científicos.
Em termos práticos, os avanços têm sido mais lentos, pois as escolas regulares ainda vêm atuando basicamente através do apoio especializado de institutos ou com base no trabalho do professor de apoio, por meio das salas de recursos, mesmo assim, com número insuficiente de profissionais especializados. A lentidão do processo de inclusão deve-se sobretudo à falta de professor devidamente qualificado e dificuldades de recursos materiais e de adaptação física das instalações.

PN: O governo tem realizado algum projeto para auxiliar o professor para inclusão na sala de aula?

ID: No Estado da Bahia, a Secretaria de Educação mantém na sua estrutura uma Gerência de Educação Especial, institutos especializados de apoio pedagógico, tal como o CAP, destinado aos alunos com deficiência visual, e oferece cursos de treinamento para professores através do IAT. Entretanto, falta uma política mais agressiva e abrangente para capacitação de professores, incremento dos profissionais técnicos da Secretaria de Educação e mais assistência e aparelhamento das escolas, quanto a instalações e equipamentos. Considerando-se que existem quase 10 % de pessoas com deficiência no total da população baiana e que apenas 5% delas recebe algum tipo de assistência educacional , é urgente um esforço mais expressivo para que se possa caminhar no sentido da inclusão.

PN: As escolas públicas de Salvador estão preparadas, quanto ao espaço físico, para essa demanda discente?

ID: Não tenho dados mais precisos para atender a tal questão, mas, considerando a minha experiência de pesquisa com alunos com deficiência visual em uma escola pública de grande porte, pude constatar que essa condição não existia, apesar de abrigar um número significativo de crianças com essa deficiência, sem contar os demais tipos, possivelmente existentes.

PN: Como é realizado o trabalho com os pais dessas crianças para auxiliarem seus filhos na questão educacional?

ID: De modo geral, considerando a minha experiência, na escola regular a participação dos pais, no sentido de orientação pedagógica, era pequena, até porque, os professores, que lidavam mais diretamente com os alunos, não tinham domínio suficiente das implicações pedagógicas do trabalho com pessoas com deficiência, conforme já foi salientado. De modo geral, os professores alertam os pais sobre as dificuldades de desempenho, para que tenham conhecimento e possam eventualmente buscar apoio em unidades especializadas. A aproximação maior entre a família e o centro educacional se fazia sentir mais de perto nos centros especializados, tal como na unidade que investiguei, destinada ao apoio pedagógico ao deficiente visual.

A APAE é uma das principais referências de educação especial na Bahia. Confira a reportagem realizada por Juracy dos Anjos



Curso de formação de professores para trabalharem com educação Especial

Muçulmanos em Salvador: educação e cultura

No mundo muçulmano, inclusive na Bahia, a criança aprende os valores morais, éticos, culturais e religiosos desde a infância. São costumes que devem ser adotados e compreendidos a partir do estudo do Alcorão, o livro sagrado. Segundo o Sheikh Ahmad Abdul primeiramente é preciso explicar o que é o islamismo e quais as condutas consideradas corretas: “para as crianças nada é obrigatório. Nem o jejum, nem o uso de véu para as meninas e nem mesmo as cinco orações diárias. O que se faz é recomendar essa prática para que desde cedo ela se acostume com nossa cultura”, explica o Sheikh enfatizando a dificuldade de educar uma criança e um jovem em uma sociedade ocidental onde os costumes divergem dos ensinamentos islamicos.
Mohmoud é um adolescente de 14 anos que acredita no poder da religiosidade para guiar sua vida. Ele nasceu em Recife e mora há pouco tempo em Salvador. Convertido ainda na infância juntamente com a família, o garoto conta que já sofreu preconceito na escola onde estuda, que é uma instituição de ensino cristão: “atualmente meus colegas brincam que sou muçulmano porque posso me casar com quatro mulheres”. Mohmoud pretende se casar com uma mulher muçulmana e faz questão do uso do véu porque ele considera bonito e atraente: “a mulher que esconde o corpo é muito mais atraente do que a que usa pouca roupa, porque demonstra pudor, recato e beleza”, diz.
O adolescente muçulmano não namora. Ao conhecer o(a) possível pretendente ele se aproxima apenas como amigo para saber se o interesse é recíproco. Caso seja é comunicado a família do compromisso. E, para quem pensa que só as mulheres precisam cobrir o corpo está enganado. O homem também é obrigado a cobrir do joelho até o umbigo, mas, preferencialmente, quanto mais coberto melhor, ainda que seja uma criança.
Atualmente o Brasil tem em média 1,5 milhão de muçulmanos vivendo no país, incluindo crianças e adolescentes. Seguir padrões considerados tão rígidos pelos ocidentais é muito difícil e requer uma postura religiosa firme por parte dessas crianças e adolescentes. Uma criança muçulmana em um Estado não-muçulmano pode se sentir deslocada ao conviver com outras que jogam futebol sem camisa, usam mine-saias, vão para praia de biquine e participam de outras vivencias comuns em uma comunidade ocidental. Para um muçulmano essas práticas são fruto da industria cultural que obrigam as pessoas agirem dessa forma. No alcorão, livro sagrado, tem uma passagem onde o profeta Maomé diz: “tudo o que a lei ensinar, analise. Se não coaduna com sua forma de pensar, não acate”. Isso fundamenta o pensamento islâmico e sustenta a vivencia desse povo que reza cinco vezes ao dia em direção a Meca, cidade sagrada para onde Mohmoud pretende ir futuramente assim como quase todos os muçulmanos.

Onde fica?

Endereço: Centro Cultural Islâmico da Bahia Rua Dom Bosco, 190 Nazaré 40055-463 Salvador – BA Tel/Fax: (71) 3241-1337 - islambahia@bol.com.br


Leia mais:







Vídeo: Mohmoud em uma das cinco orações diárias

6.11.07

IBOPE: 80% dos professores estão insatisfeitos

Uma pesquisa realizado pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) a pedido da Fundação Victor Civita, apenas 21% dos professores brasileiros que trabalham em escolas públicas estão satisfeitos com a profissão. Foram ouvidos 500 educadores de todas as capitais do país. Uma das principais queixas é a instabilidade financeira que levam ao descontentamento da categoria com o trabalho. A pesquisa mostra que 90% dos docentes a consideram condição fundamental para ter boa qualidade de vida e apenas 32% dos professores afirmam tê-la conquistado, Segundo entrevista concedida a Agência Estado, o professor Celso Favaretto, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), que teve acesso aos dados, muitos professores da rede pública têm de dar aulas em duas ou mais escolas para receber um salário razoável. “Além disso, as condições de trabalho são precárias, há salas de aulas lotadas. Essa insatisfação do professor com o trabalho está relacionada com uma má gestão de todo o sistema escolar”. Favaretto aponta outras aparentes contradições no discurso dos professores: 90% afirmam ter boa didática de ensino, mas, 70% dizem ver na falta de motivação dos alunos o principal problema em sala de aula. “Acredito que afirmar ter boa didática de trabalho seja um discurso de defesa do professor, mas, se realmente tivessem, não teriam alunos desmotivados. Esses docentes possivelmente também não tiveram boa formação inicial”. A pesquisa comprova a constatação do especialista: 64% dos professores avaliam a formação que tiveram como boa ou excelente. Contudo, 49% admitem que essa mesma formação os preparou pouco para a atuação em sala de aula. O que é contraditorio.Segundo a matéria publicada no Estadão, o salário de um professor da rede estadual em início de carreira é de R$ 1.295,76 para uma jornada de 30 horas semanais (considerando piso e gratificações). Para David Saad, diretor-executivo da Fundação Victor Civita, a má qualidade da educação brasileira e a insatisfação do professor não estão relacionadas apenas a remuneração. “O professor também tem de entender sua responsabilidade sobre o aprendizado”.

1.11.07

Cabeça bem feita

MORIN, Edgar. Cabeça bem feita. 3ª edição. Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 2003.



O livro nos aponta caminhos para pensarmos em educação no sentido mais amplo da palavra, compreendendo o sujeito inserido no universo e as relações dele com o todo. Para Morin (2003) existe uma inadequação muito grande e isso é grave, pois os saberes são fragmentados por disciplinas e, dessa forma se tornam invisíveis as entidades multidimensionais; as interações e retroações entre partes e o todo; os problemas essenciais; conjuntos complexos. Esse formato de currículo impossibilita de se perceber o que o autor chama de global e essencial, pois “[...] problemas essenciais nunca são parceláveis, e os problemas globais são cada vez mais essenciais”. (MORIN, 2003). Retalhar conteúdos por meio de disciplinas torna-se impossível a aprendizagem global em rede de conexões. E, dessa maneira, o desafio da globalidade na educação está no campo da complexidade que compõem saberes sociais que são inseparáveis. Desde o primário as escolas obedecem esse sistema na separação de objetos, disciplinas e dissociação de problemas, resumindo o estudante a um contexto simples e descontextualizado com o mundo dinâmico e até provocando a perda de aptidões naturais para contextualizar e interligar saberes diversos. Nesse texto é proposto pensarmos nesse problema do ensino fragmentado que leva efeitos problemáticos cada vez maiores e também apontam três desafios que é o cultural, o sociológico e o cívico. Mas, para o autor, o desafio dos desafios é a necessidade retirar todos os desafios interdependentes, pois “a reforma do pensamento é que permitiria o pleno emprego da inteligência para responder a esses desafios e permitiria a ligação de duas culturas dissociadas”. (2003) Essa reforma é paradigmática e de acordo com a capacidade de organizar o conhecimento. Até hoje, todas as reformas realizadas são carentes para o ensino. A reforma que precisamos é a do pensamento.
A “cabeça bem-feita” não simplesmente acumula saberes, mas tem aptidão geral para colocar e tratar os problemas e tem princípios organizadores que interligam os saberes dando-lhes sentido. A aptidão geral é o uso da inteligência e necessita de domínios da cultura das humanidades e cultura científica dando ênfase ao “pensar bem”, dessa forma a organização dos conhecimentos, que se constitui em uma tradução e reconstrução de sinais, signos, símbolos, idéias, teorias e discursos, é realizada de operações de ligação e separação, análise e síntese.

O desenvolvimento anterior das disciplinas científicas, tendo fragmentado e compartimentado mais e mais o campo do saber, demoliu as entidades naturais sobre as quais sempre incidiram as grandes interrogações humanas: o cosmo, a natureza, a vida e, a rigor, o ser humano. As novas ciências, Ecologia, ciências da Terra, Cosmologia, são poli ou transdisciplinares: têm por objeto não um setor ou uma parcela, mas um sistema7 complexo, que forma um todo organizador8. Realizam o restabelecimento dos conjuntos constituídos, a partir de interações, retroações, inter-retroações, e constituem complexos que se organizam por si próprios. Ao mesmo tempo, ressuscitam entidades naturais: o Universo (Cosmologia), a Terra (ciências da Terra), a natureza (Ecologia), a humanidade (pela visão em perspectiva da nova Pré-história do processo multimilenar de hominização). (MORIN, 2003).

Nessa perspectiva, a ecologia envolve a zoologia, microbiologia e botânica e também é necessário compreender as ciências humanas para dialogar entre o mundo humano e a biosfera, ou seja, ciência ecológica. A ciência da terra prevê o estudo da geografia abrangendo a física terrestre, biosfera e o homem nesse contexto, já a cosmologia envolve conhecimentos de biologia e física. Além dessas, o autor também aponta os atrasos das ciências inter relacionadas e diz que “uma educação para uma cabeça bem-feita, que acabe com a disjunção entre as duas culturas, daria capacidade para se responder aos formidáveis desafios da globalidade e da complexidade na vida quotidiana, social, política, nacional e mundial”. (MORIN, 2003).
É enfatizada pelo autor a consciência da condição humana que dependem não apenas das ciências humanas e filosóficas, mas também das ciências naturais (cosmologia, ecologia e ciências da terra). É preciso situar o homem no universo e faze-lo perceber parte integrante do mesmo.

Em meio à aventura cósmica, no extremo do prodigioso desenvolvimento de um ramo singular da auto-organização viva, prosseguimos, à nossa maneira, na aventura da organização. Essa época cósmica da organização, incessantemente sujeita às forças da desorganização e da dispersão, é, também, a época da reunião, e só ela impediu que o cosmo se dispersasse e desaparecesse, tão logo acabara de nas cer. Nós, viventes, e, por conseguinte, humanos, filhos das águas, da Terra e do Sol, somos um feto da diáspora cósmica, algumas migalhas da existência solar, uma ínfima brotação da existência terrestre. (MORIN, 2003).

A nova cultura cientifica nos oferece um novo olhar a cultura humanística, filosófica, histórica e geral de uma forma mais aberta e mutável diante a condição do homem, que é mutável, dinâmico, complexo e psicosociocultural, na terra. Assim, a nova cultura científica oferece uma maior compreensão do ser integrante do todo. A contribuição das ciências humanas nesse processo é muito fraca atualmente porque estão desconectadas e fragmentadas ao estudo da condição humana e essa situação anula a noção do ser. Seria necessário a criação de uma ciência antropossocial religada que abrangesse o homem, a cultura e a diversidade grupal e individual com um entendimento psicológico. O estudo das contribuições culturais das humanidades é outra questão importante nesse processo, pois envolve pensamentos profundos da condição humana. São: o estudo da linguagem (literária, poética, etc) que permite, entre tantas coisas, a auto-reflexão e experimentos, e também o estudo das artes que envolve a estética (musica, pintura, escultura, etc).
Morin cita Durkheim, considerado o pai da sociologia para dizer que a educação não é apenas transmitir conteúdos, mas sim “criar nele um estado interior e profundo, uma espécie de polaridade de espírito que o oriente em um sentido definido, não apenas durante a infância, mas por toda a vida”. É fundamental o entendimento do conhecimento para a transformação mental do próprio aprendiz. È por meio da escola da vida que o sujeito traduz as informações em conhecimento e se compreende no mundo. A cultura das humanidades são representações simbólicas, ou seja, as informações que serão absorvidas através das vivencias sociais das quais a literatura, a poesia e o cinema fazem parte. Quanto a iniciação à lucidez, Morin (2003) diz que a própria iniciação à onipresença do problema do erro:

É necessário, e isso desde a escola primária, que toda percepção seja uma tradução reconstrutora realizada pelo cérebro, a partir de terminais sensoriais, e que nenhum conhecimento possa dispensar interpretação. Assim, a partir de testemunhos contraditórios do mesmo acontecimento, podemos mostrar que, à vista de um acidente de carro, por exemplo, pode haver falsas percepções que comportam, em geral, racionalizações alucinatórias. Podemos ilustrar casos de percepção imperfeita, por hábito ou por atenção maldefinida, desatenção a um detalhe insignificante, interpretação precipitada de elemento inusitado e, sobretudo, deficiência de visão de conjunto, ou ausência de reflexão. É preciso ilustrar os casos de memorização demasiado segura, que se autoconfirma na repetição de uma lembrança deformada. Da mesma maneira, é preciso observar que uma preocupação de inteligibilidade, demasiado fraca, leva a ignorar a significação de um fato ou de um acontecimento, ao passo que uma preocupação excessivamente forte de inteligibilidade leva a um erro racionalizador que altera essa significação. Serão dados exemplos de decisões desastrosas, tomadas não apenas por irreflexão, cinismo ou irresponsabilidade, mas também por processos psíquicos de racionalização absurda ou ocultação inconsciente, destinados a preservar a nossa paz de espírito. (MORIN, 2003).


Deve-se permanecer de forma progressiva até o ensino médio onde será enfatizado a oposição entre a racionalização, sistema lógico de explicação e a racionalidade e, no ensino superior trabalhar-se com lógica e racionalidade auto-crítica sob a luz da psicologia do conhecimento e das ciências cognitivas.
O autor também fala sobre a inexistência da noosfera, que trabalha no âmbito imaginário, dos mitos e das idéias que estão presentes na vida das pessoas e da importância dessa introdução aos símbolos na formação do ser bem como a necessidade de revitalização das ciências filosóficas nos currículos pois ela é o ponto fundamental para a compreensão do homem e do mundo.
Para Edgar Morin, a maior contribuição do conhecimento no século 20 foi a dos limites do próprio conhecimento como a incerteza física e biológica (mudanças de paradigma), a incerteza humana (incerteza no principio do conhecimento: cerebral – construção disposta a erros; físico – interpretativos; epistemológico – crise dos fundamentos da certeza) e os três viáticos (ação, estratégica e o desafio).
A aprendizagem cidadã para Morin é a contribuição na autoformação do homem e como se tornar cidadão partindo da idéia da democracia, solidariedade e responsabilidade para com a pátria. O Estado-Nação envolve conceitos que ele define como palavras-chave: comunidade/sociedade (sociedade complexa que envolve aspectos de colaboração diversos setores da vida social); comunidade de destino (de caráter cultural/histórico); entidade mitológica ( caráter espiritual de fraternidade entre “filhos da pátria”); religião nacional (A mitologia matripatriótica inclui cerimônias de exaltação, objetos sagrados -bandeira, monumento aos mortos-, o culto de adoração à Mãe-Pátria, os cultos personalizados aos heróis e mártires). Para ele, o estado-Nação poderia ser ultrapassado porque no quadro interno da nação o Estado acaba sendo homogêneo por conta dos aspectos técnico-burocrático e também porque “todos os grandes problemas exigem soluções multinacionais, transnacionais, continentais, até planetárias, e necessitam de sistemas associativos, confederativos ou federativos, metanacionais”. (MORIN, 2003). A identidade européia é uma identidade entre as nações por conta do processo histórico de colonização e até hoje conduzem um padrão de comportamento criando uma identidade globalizada. É imprescindível nesse contexto concebermos ao mesmo tempo, uma identidade terrena tendo em primeiro lugar a idéia que todos pertencemos ao mesmo planeta e somos expostos a ameaças ecológicos da biosfera; identidade humana comum ainda que diferentes em aspectos socioculturais e geográficos; e, por último, que somos integrantes de uma comunidade terrestre.
No sétimo capítulo, Morin fala dos três graus e como divisar as finalidades de cada um deles. No primeiro temos o primário que onde se ganha autonomia e se aprende a conhecer por meio de duas vias: a interna e a externa. A primeira passa pela a auto-análise e auto-crítica quando se estrutura uma forma de pensar. A via externa é a tradução das informações em conhecimento. Nesse momento as crianças interagem com diversas mídias disponíveis atualmente como computador, celulares, tv, games, etc.
No segundo momento encontramos o secundário, quando a aprendizagem deve ser um diálogo com a própria cultura levando a reflexão das ciências e literatura relacionadas a escola da vida. E, na universidade, o sujeito já conserva, memoriza, integra e já atua segundo valores culturais. “A Universidade deve, ao mesmo tempo, adaptar-se às necessidades da sociedade contemporânea e realizar sua missão transecular de conservação, transmissão e enriquecimento de um patrimônio cultural, sem o que não passaríamos de máquinas de produção e consumo” (MORIN, 2003). Para tal, se faz necessário uma reforma no ensino das universidade por meio de uma reforma do pensamento. Essa reforma deve compreender que o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e o contrario também; que reconheça os fenômenos multidimensionais, em vez de isolálos; que reconheça e trate as realidades que são solitárias e conflituosas; que respeite a diferença; substituir o pensamento que distingue e une para introduzir um pensamento complexo. Essa reforma partiria das ciências, da literatura e da filosofia e de todos os níveis do pensamento.
Os sete princípios apontados pelo autor para que haja a reforma do pensamento são: o princípio sistêmico ou organizacional (conhecimento das partes e do todo); o princípio hologrâmico (põe em evidência este aparente paradoxo das organizações complexas, em que não apenas a parte está no todo, como o todo está inscrito na parte); o princípio do circuito retroativo (permite o conhecimento dos processos auto-reguladores); princípio do circuito recursivo (é um circuito gerador em que os produtos e os efeitos são, eles mesmos, produtores e causadores daquilo que os produz); princípio da autonomia (auto-organização); princípio dialógico (une princípios que são, na verdade, indissociáveis); e o princípio da reintrodução do conhecimento em todo o conhecimento (opera a restauração do sujeito e revela o problema cognitivo central: da percepção à teoria científica, todo conhecimento é uma reconstrução/tradução feita por uma mente/cérebro, em uma cultura e época determinadas).
Partindo desses pressupostos, Morin acredita que o humanismo seria regenerado iniciando um novo modo de pensar, unindo e solidarizando conhecimentos separados. Para ele, deve haver mais critérios de ensinamentos respeitando a singularidade de cada indivíduo, além de reformas de flexibilidade em relação a carga horária, organização de conteúdos, com uma missão clara de que a carreira do professor requer além de técnicas, exige uma arte, amor, fé na cultura e nas possibilidades do espírito humano. As finalidades da cabeça bem feita são: aptidão para organizar o conhecimento, o ensino da condição humana, a aprendizagem do viver, a aprendizagem da incerteza, a educação cidadã. Assim se dará inicio a democracia cognitiva tendo claro a noção de sujeito:

O sujeito não é uma essência, não é uma substância, mas não é uma ilusão. Acredito que o reconhecimento do sujeito exige uma reorganização conceptual que rompa com o princípio determinista clássico, tal como ainda é utilizado nas ciências humanas, notadamente, sociológicas. No quadro de uma psicologia behaviorista, é impossível, claro, conceber um sujeito. Portanto, precisa-se de uma reconstrução, precisa-se das noções de autonomia/dependência; da noção de individualidade, da noção de autoprodução, da concepção de um elo recorrente, onde estejam, ao mesmo tempo, o produto e o produtor. É preciso também associar noções antagônicas, como o princípio de inclusão e exclusão. É preciso conceber o sujeito como aquele que dá unidade e invariância a uma pluralidade de personagens, de caracteres, de potencialidades. Isso, porque, se estamos sob a dominação do paradigma cognitivo, que prevalece no mundo científico, o sujeito é invisível, e sua existência é negada. (MORIN, 2003).


A cabeça bem feita nasce no contexto globalizado e simbólico e para ele se volta em uma inter-relação simbiôntica a partir da consciência da educação paradigmática e, para tanto, é imprescindível a compreensão da concepção complexa do sujeito.
Confira o vídeo de Morin: mudanças de paradigmas